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03/05/05 - EXGORDOREFLEXÕES
Que não seja em vão!!!

Luci Leia Teixeira Vianna faleceu dia 21 de Abril de 2005 com 35 anos e 180 quilos

Lidar com a morte nunca é fácil. Há  quem acredite em destino certo e que independente do que façamos, morreremos em data e hora marcados por Deus.  Um "maktub" cruel. Não posso acreditar nisso. É muito conformismo. Acredito que se não tivesse operado, se não tivesse mudado meus hábitos, se tivesse continuado com 300 quilos, já não estaria mais aqui, fazendo essa reflexão. Acredito que possamos mudar nosso destino em cada escolha. Em um segundo podemos mudar toda a  trajetória de nossa vida  e cada opção tem sua conseqüência e resultados mostrados com o tempo.

Felizmente, minha história foi feliz e hoje posso até servir de exemplo e inspirar outras pessoas. Sei que essa exposição é arriscada e já sofri conseqüências  disso. Já perdi amigos e fui acusado de ser a má influência que os levou à morte. Fez parte de várias sessões de minha terapia apagar esses fantasmas. Não sou um colecionador de provérbios, mas um em especial me fez mudar de atitude. Uma frase atribuída a Vitor Hugo  — "Morrer é quase nada, horrível é não viver" — já parou para pensar na profundidade disso? Ninguém é mais corajoso do que aquele que não tem nada a perder. Com 300 quilos, sem andar e praticamente dependendo  dos outros para tudo, que vida eu tinha? Sem sexo, sem lazer e prazer, a morte seria até um alivio. Só os que já estiveram "nesse inferno" sabe entender o que eu estou dizendo. Resolvi não me entregar. Se tinha que morrer, que fosse lutando. Sem dinheiro, sem padrinhos políticos, fui à luta com as armas que eu tinha. Felizmente estou aqui, 200 quilos mais magro, vivo e me sentindo vitorioso. Nesse percurso, perdi amigos. Fistula, embolia, infecção hospitalar são os nomes de alguns  dos inimigos que os abateram, mas morreram lutando e também são vitoriosos de alguma maneira.

Infelizmente nesse mês de Abril perdemos mais um amiga,  Luci Leia,  de Brasília. Com 35 anos e seus 180 quilos, ela também era uma lutadora. Sonhando com uma vida melhor, se aproximou de outros guerreiros para tomar coragem e se inspirar. Infelizmente ela não teve oportunidade de pegar em armas. Morreu no meio do caminho, esperando em uma dessas deprimentes e desumanas filas do SUS. Para as autoridades ela é apenas um índice mórbido, um número, uma estatística. E como ela, há muitos outros, morrendo nesse momento sem ter ao menos chance de tentar. Morrer por complicações na cirurgia é triste sim, mas morrer na fila é muito pior. É sonhar e não realizar. Sei que é utopia acreditar que um dia isso vá se resolver, mas não fazer nada também é covardia. Vamos lutar por aqueles que estão sonhando, por aquelas "Lucis" que estão esperando em filas que chegam há 8 anos. Não deixemos que a morte de Luci seja em vão... Luci, vá com Deus. Você também é uma campeã.